Aos homens com deficiências físicas I - Por Símia Zen.


Senhores,

Há tempos sinto impulso em escrever-lhes, pois nutro um terno respeito aos homens valentes, e de todas as sagas pela sobrevivência, não há nenhuma que se iguale a luta que travam dia a dia com as limitações do corpo e/ou conformação cerebral e, naturalmente, com o próprio “eu” interior. Creio que ninguém neste mundo possa dizer que esta guerra que os senhores enfrentam vida a fora é pouca coisa...

O tanto que tive de oportunidade em participar da vida de pessoas com o invólucro carnal com deficiências, pude compreender que entre o corpo e a alma dos senhores há uma grande diferença, percebi que corpos deficientes não determinam sobre a eficiência da alma. Ou seja, se seus corpos não são eficientes dentro do protótipo da natureza até agora, seus espíritos não são deficientes, e mesmo que os corpos não possam acompanhar o voo da alma isso não significa que seus pensamentos não tenham asas.

Dentro dessa percepção é que não me espanto com os prodígios que muitos homens com corpos deficientes realizam, sei que muitos na vontade forte e valente – potencia na alma - superam as barreiras que seus corpos a princípio poderiam lhes impor. Realmente mostram que a final quem se impõe aos corpos são os espíritos (quando são espíritos fortes, claro), e assim os senhores voam, mesmo que com imensas dificuldades, se adaptando, readaptando na realidade de seus corpos ante a vida cotidiana, criando, recriando inúmeras possibilidades de felicidade dentro da fadada impossibilidade da “normalidade”.

Digo “normalidade” entre aspas porque não acredito que a forma humana no plano físico seja estática imutável, desde sempre e para sempre a forma material se transforma, dentro desta dinâmica já tivemos corpos bem diferentes dos que temos hoje e, como seria de se esperar, nossa forma orgânica continuará a se modificar para acompanhar as mudanças da vida e do planeta como um todo, creio que assim como já encarnamos em formas muito rústicas no berço da vida humana, é bem possível que na dinâmica da natureza venhamos a encarnar em formas orgânicas diferentes dos corpos símios mais sofisticados nos quais vivemos hoje.

Homens especiais, sinceramente, eu acho uma temeridade esse discurso torpe que prega que todos são iguais. Isso não é verdade. Somos todos diferentes e é nisso sim que compomos nossa igualdade, individualmente somos tão únicos que nem o design parecido pode nos igualar. Pessoas com corpos que, por algum motivo são deficientes, não deveriam ser enganadas com essa hipocrisia de que o funcionamento do corpo não faz diferença. Faz sim, pois o mundo está organizado de acordo com as possibilidades do protótipo comum até este momento, pessoas com corpos variantes a esse protótipo encontram um sem numero de situações que deflagram essa mentira, lhes acrescentando ainda mais dificuldades na existência subjetiva e objetiva no mundo, portanto, esse papo de dizer que todos iguais precisa de revisão, se não jamais haverá a devida consideração às necessidades especiais das pessoas encarnadas em corpos com funcionamento diferente do protótipo com mais recursos para a eficiência. Por ignorar as necessidades especificas das pessoas com deficiência física, muitas vezes as negligenciamos no trato de convivência com os senhores e também com a ambientação necessária nas ruas e instalações arquitetônicas de nossas cidades.

Eu mesma antes de ter tido a boa sorte de conviver com pessoas portadoras de deficiências físicas não fazia idéia do quanto o mundo poderia ser complicado para os senhores, pois tudo está facilitado confortavelmente só aos que não portam corpos com os limites em que os senhores estão encarnados. Quase tudo no mundo ainda está desfavorável para vossas conquistas de autonomia no meio coletivo em plano geral. Muita gente com corpos “normais” por ignorância nutre um sentimento desconexo em relação aos senhores, talvez um misto de culpa por terem com corpos de vida “fácil” e os senhores corpos de vida “difícil” e algo como uma piedade mórbida, sentimento incoerente com a realidade interna dos senhores. Acho que só se deve aceitar algum fatalismo diante de uma realidade realmente imutável que impossibilite a adaptação e/ou superação de limites, e isso se vê claramente que não depende do estado do corpo e sim do espírito, e a culpa também não tem razão de ser, já que cada um de nós tem um corpo eficiente ou não, ninguém está furtando o corpo de ninguém. Creio que a postura mais bacana na relação com os que portam corpos com deficiências seja sim é a de solidariedade e de amizade. Aliás, já vi corpos deficientes muito mais eficientes no que toca a harmonia entre o corpo e o espírito e atividades inerentes do que em pessoas com corpos “normais”.

Por falar nesse sucesso, devo lembrar casos onde a deficiência foi compensada de forma bacana, como por exemplo, o de Andréa Bocelli e Stevie Wonder que se não tiveram eficiência na visão, a desenvolveram-se de sobra em audição e musicalidade, ou de Beethoven que se perdeu a audição, recorreu a inteligência lógica e memória musical e compôs uma obra universal e atemporal. Os atletas paraolímpicos que só puderam contar com sua cabeça e tronco para conquistarem a glória, e os pintores que pintam com a boca e os pés, e Stephen Hawking que sem nada de movimento no corpo se desenvolveu na mente em “O” cientista. E Nick Vujicic com o troco e pés é um “bon vivant” palestrante instrutor de motivação para deficientes e eficientes físicos, Pablo Pinela psicopedagogo e ator (protagonista - Yo También) com síndrome de Down. Enfim são muitos os exemplos onde o espírito forte supera grandes desafios mesmo que este seja viver bem em um corpo de vida difícil. Claro que estes heróis receberam o auxilio solidários de homens e mulheres com corpos normais, mas isso não opaca seus méritos, ao contrário, através da oportunidade que humanos com corpos normais encontraram para exercer e nutrir a virtude da solidariedade eles também se beneficiaram em crescimento humano, fortalecem em si nobres e puros sentimentos humanos com o senso de cuidado e proteção, tornando-se mais úteis e amigos da Vida. Ao final o contato e apoio às pessoas com deficiências físicas acaba sendo uma reeducação do espírito humano e, ainda mais rica que para os próprios deficientes físicos, portanto é uma benesse para as pessoas “normais” que os senhores os permitam a auxiliá-los em suas lutas por adaptação e superação de seus limites.



Bom... Com essa minha escrevinhada toda acho que já pude expressar aos senhores que estou torcendo por vossas vitórias sobre as circunstancias e que não esmoreçam em suas sagas nesta encarnação, porque os senhores são diferentes em corpo, e que essa diferença realmente pode lhes fazer o cotidiano mais difícil, mas isso não pode os abater, há força eficiente nos senhores e ela se renova de dentro pra fora como é em todos os humanos. O que possa lhes ser desagradável em suas vidas, (vida que se poderia chamar de curso intensivo em auto-superação), na mesma mão, pode ser uma oportunidade, um desafio propulsor ao aprimoramento do espírito humano, por exemplo.

Em reverência amistosa,

Símia Zen.

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Posted 31st March 2011 by Shâmtia Ayômide
Labels: Masculinidade Simia Zen
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Fonte: Texto originalmente publicado no site Reflexões Masculinas - Revista Online sobre o Homem e a Masculinidade  - http://reflexoes-masculinas.blogspot.com.br/2011/03/aos-homens-com-deficiencias-fisicas.html
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